"ah, eu te conheço!!". falou isso com conhecimento de causa e jogou a cabeça para trás. só faltou soltar uma vigorosa gargalhada e botar a mão na cintura. eu, sentado ao lado dela, ela em pé ao meu lado, olhei pra cima, que nem era tão pra cima assim e só encarei. nem foi uma encarada. foi um olhar neutro. meio distante até. mas próximo o suficiente para notar uma espinha no canto do lábio, uma testa um pouco suada, um olho mio caído e o outro meio vermelho. ela era bonita. sim, era sim. mas ali ela parecia meio gasta. a pele meio borrachuda, o viço veio vencido. ela começou a falar muito sobre mim, descreveu minhas empolgações, minhas fantasias, minhas idéias firmes a respeito das coisas...enfim, em poucas palavras, todas ditas em disparada, ele fez pouco de mim enquanto balançava o copinho de cerveja pra lá pra cá. eu nem respondi. num achei importante. fiquei meio entorpecido pelo calor e ao mesmo tempo tudo aquilo parecia muito trabalhoso. fixei a atenção nos detalhes. olhei bem aqueles traços excitados, aqueles gestos em convulsão enquanto ela procurava manter uma certa frieza. pensei naquele instante de que ela já havia sido mais fria. mas agora, com uma cerveja a mais na cabeça, toda a convulsão começava a transparecer. estava tudo bem, eu podia ouvir ela repetir pra si mesma. ela defendia com unhas e dentes todo o universo que queria pertencer. queria manter tudo intacto. um olhar meu já fazia ela correr em defesa. tudo estava bem, ela estava em controle. ela podia controlar tudo. entretanto agora ela precisava justificar também. não funcionava mais somente saber internamente que estava em controle. não bastavam os olhares dos homens, a inveja das mulheres. talvez ali os olhares tenham diminuído, talvez agora ela sentisse uma ponta de inveja de outra mulher mais fria e distante do que ela conseguia ser naquele momento.
a esta altura a rajada de palavras já havia cessado. ela sentou ao meu lado, achei que quase exausta, naquele momento ela buscava abrigo. depois de desabafar o mundo dos ressentimentos, exaurida e pálida, parecia mais frágil do que nunca. sentou ali do meu lado em silêncio. eu já nem mais olhava para ela, olhava para os sapatos, pensava no calor...ela sentou, respirou mais tranquila, pegou no meu braço, botou a cabeça no meu ombro, e começou novamente a falar. agora falava outra canção. naquele instante tudo que contava era que ela me conhecia mesmo.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário